Diz a lenda…
Era uma vez, há mais de mil anos, um monge que passeava pelas pastagens da Arábia quando, de repente, nota uma grande agitação onde umas cabras pastavam. Impressionado com a alegria dos animais, o monge resolveu verificar mais de perto o que acontecia. Junto às cabras estava um jovem pastor, chamado Kaldi, que cantarolava e o quadro era de total êxtase. O monge, muito curioso, notou que nas mãos do pastor havia uma pequena frutinha de cor vermelha. O pastor contou então que aquela frutinha era a responsável por toda aquela felicidade e motivação, e apenas com a ajuda dela o rebanho conseguia caminhar por muitos quilômetros com muita disposição. O monge não teve dúvidas, apanhou um punhado da fruta e levou para o seu monastério. Um pouco antes da oração noturna, ele resolveu experimentar. Sentiu então seu corpo tomado por uma agradável sensação de júbilo e motivação. O monge orou a noite inteira e agradeceu ao novo elixir a súbita disposição. Surgia, então, a nova bebida, considerada a fórmula ideal para deixar os monges acordados durante as rezas e os longos períodos de meditação.
O café, a bebida mais popular do mundo, é originário da Etiópia, antiga Absínia (centro da África). Mas a planta foi mesmo cultivada pela primeira vez pelos árabes - por isso a denominação ‘café arábica’, nome científico de uma das mais importantes espécies de café. Os Árabes tiveram o completo controle não só sobre o cultivo, mas também na preparação da bebida. O nome café é originário da palavra árabe qahwa, que significa vinho. Justamente por isso, o café era conhecido como "vinho da Arábia" quando chegou à Europa no século XIV. Como a proibição de bebidas alcoólicas era norma da religião maometana, o café tomou conta do mundo árabe, passando a ser consumido em larga escala. Mas, apesar disso, a bebida sofreu no início do século XVI sua primeira perseguição, chegando a ser proibida durante algum tempo. Khair Beg, governador de Meca, tenta, em 1511, proibir o consumo do café. O sultão, sabendo do ocorrido, decreta uma lei que torna o café uma bebida sagrada e condena o governador à morte. O café fez parte do dia-a-dia dos árabes com tanta força, que, em 1475, foi promulgada uma lei permitindo à mulher pedir divórcio, se o marido fosse incapaz de lhe prover uma quantidade diária da bebida. Foi em 1544 que as primeiras casas de café foram abertas em Constantinopla - atual Istambul.
Planta proibida
Os Árabes, durante muito tempo, bem que tentaram esconder as plantações para que nenhum estrangeiro tivesse acesso ao tão raro fruto. Somente era permitido que saíssem do país grãos previamente fervidos, que não germinariam em outras terras. Mas os holandeses burlaram essa vigilância, conseguiram as primeiras mudas e as cultivaram em 1658. Daí, de um arbusto, trazido de Java para o Jardim Botânico de Amsterdã, foram tiradas mudas e posteriormente ofertadas aos principais jardins botânicos europeus. Uma das doações foi feita, em 1714, ao rei francês Louis XIV. As mudas foram cuidadosamente colocadas nas estufas do Palácio de Versailles. Mal imaginava o rei que nas cafeterias que iriam surgir em Paris tempos depois é que seria planejada a Revolução Francesa.
No início o café foi conhecido na Europa por suas propriedades medicinais. A partir do século XVII, porém, o mundo europeu passara a adotar o café como bebida. Já na Itália, onde entrou em 1615 por meio do porto de Veneza, o produto teve que vencer forte resistência da Igreja. Cristãos fanáticos incitaram o Papa Clemente VIII a condenar o consumo da bebida, tida como invenção de Satanás. Ao provar o café, porém, o papa teria declarado: - "Esta bebida é tão deliciosa que seria um pecado deixá-la somente para os infiéis. Vençamos Satanás, dando-lhe nossa bênção e tornando-a verdadeiramente cristã".
O café rapidamente passou a fazer parte definitiva dos hábitos europeus. Diversas casas de café foram abertas e o consumo foi consagrado por nomes famosos como Rousseau, Voltaire, Richelieu, Johann Sebastian Bach, Diderot e muitos artistas. Até mesmo Napoleão Bonaparte, general e imperador da França de 1804 a 1815, dizem foi um grande admirador do café. A bebida também foi brindada com uma composição especial. Johann Sebastian Bach, compôs, em 1732, sua célebre "Cantata ao Café", para ser especialmente tocada nas cafeterias. Outra curiosidade é que o uso do café em Viena teve origem quando, após o cerco de 1683, os turcos abandonaram a cidade deixando entre os despojos algumas sacas do produto, até então desconhecido. Frans George Kolschitzky, que tendo vivido no Oriente conhecia os grãos, apoderou-se das sacas e procedeu à elaboração e venda do produto, ao qual juntou açúcar e creme chantilly, assim nascendo o tão apreciado café vienense.
O café no Brasil: história de paixão
A história da vinda do café para o Brasil é envolta em mistério e romance. Em 1727, o sargento-mor Francisco de Mello Palheta teria recebido a missão oficial de trazer da Guiana Francesa as tão preciosas mudas. Conta-se que os portugueses eram proibidos de receber a planta. Palheta, porém, disposto a cumprir sua missão se aproximou intimamente da esposa do governador de Caiena, capital do Suriname. Ela, tomada pela paixão, ofereceu clandestinamente uma pequena muda do café Arábica que veio escondida na bagagem do brasileiro.
Nos primeiros tempos o cafeeiro se desenvolvera apenas nas províncias do norte do país, em pequenas plantações. O café chegou ao Rio de Janeiro no início do século XIX, e foi plantado em chácaras na Tijuca, Gávea, Andaraí e Jacarepaguá. Da cidade maravilhosa o café expandiu-se pela Serra do Mar até atingir, em 1825, o Vale do Paraíba, alcançando logo depois São Paulo e Minas Gerais e norte do Paraná. Uma curiosidade é que o café tipo santos, muito conhecido no mundo, nada tem a ver, como muitos pensam, com a cidade de Santos, porto exportador de café. Na verdade, a marca Santos deriva de Alberto Santos Dumont, que além de ter sido um pioneiro da aviação, foi também considerado "o rei do café".
Depois de avançar pelo Vale do Paraíba e chegando a Campinas, o Brasil, em 1860, torna-se uma grande potência exportadora de café com 26 milhões de pés plantados. O café torna-se o principal sustentáculo de uma aristocracia rural tão opulenta quanto a dos senhores de engenho, composta de ricos fazendeiros que passam a ser chamados de barões do café. O café também traz progresso. O escoamento da safra era de fundamental importância, por isso, em 1867, inaugurou-se a Santos - Jundiaí, que unia Santos, principal porto de exportação de café, às zonas de produção. Outras ferrovias surgiram como a Paulista, a Mogiana, a Sorocabana e a Noroeste, cujos traçados orientaram a direção de novas lavouras; mais tarde os cafezais atingiram também o norte do Paraná. Mas foi São Paulo que tornou-se a Metrópole do café. O progresso atingiu também as cidades do interior, onde surgiram bancos e casas bancárias. A cultura cafeeira atraiu grande número de imigrantes, sobretudo italianos, que vieram em busca de novas perspectivas. Para incentivar a produção e suprir o problema da mão-de-obra, com o fim da escravidão, o governo incentivou a imigração, principalmente da Itália.
A quebra do setor cafeeiro no Brasil
Com a chegada da República, os coronéis do café, por meio da chamada política do café-com-leite, passaram a dividir e alternar-se com os mineiros na condução dos destinos do país. Porém, a crise de 29, com a quebra da bolsa veio a afetar profundamente a cafeicultura. O financiamento junto aos bancos estrangeiros é interrompido. O preço do café despenca levando muitos fazendeiros à miséria e ao desespero. Milhares de sacas de café estocadas foram queimadas. O excedente da produção também faz com que milhões de pés de café sejam erradicados, na tentativa de estancar a continuada queda de preços. Tem início a maior crise da história no setor cafeeiro.
Com a recuperação da economia Mundial, após o golpe de 1929, o Sudeste do país volta a crescer, agora apoiado na cafeicultura e na indústria, com expressão cada vez maior na economia local. Assim, o café brasileiro vai gradualmente retomando sua importante posição na pauta de exportações e o Brasil consegue manter-se como principal produtor de café do mundo e segundo maior mercado consumidor.
Fonte: Pascoal, Luís Norberto. Aroma de Café - Guia Prático para Apreciadores de Café. 1999.